Muito prazer!
Somos Gabriela Matoso e Bruno Ataíde, baianos, arquitetos e fotógrafos. Unindo a técnica e a sensibilidade das duas artes, traduzimos a história da sua hospedagem através de fotografias e vídeos.
Nossa proposta é dar destaque a todos os detalhes que compõem o seu espaço, e com uma linguagem humanizada, valorizar as sensações e experiências que serão vividas pelo hóspede.
Gabriela Matoso
BIO
Gabriela Matoso (1994), vive e trabalha em Salvador (BA). Sua prática artística se constrói a partir da investigação de uma subjetividade em trânsito, atravessada por deslocamentos afetivos e geográficos. Opera em um território híbrido entre o autobiográfico e o ficcional, onde a memória não é um arquivo estático, mas um campo de tensões, reescritas e fabulações. O corpo, a casa e a paisagem surgem como elementos recorrentes, articulados em narrativas que exploram a fragilidade dos vínculos e a construção da identidade.
Seus primeiros gestos surgiram de forma intuitiva, ainda na infância, através da dança e de uma manualidade que mais tarde foi disciplinada pela arquitetura. Essa formação inicial, embora rígida, lhe forneceu uma consciência espacial e estrutural que hoje informa seu processo. No entanto, foi o encontro com a fotografia, aos dezoito anos, que determinou uma ruptura. A câmera se tornou um dispositivo de mediação, um olho protético que lhe permitiu negociar a distância entre o eu e o outro, entre o espaço interno e o mundo.
Um ponto de inflexão em sua trajetória foi um período de crise e isolamento aos 25 anos. A depressão funcionou como um catalisador que radicalizou sua prática, impulsionando-a para um lugar de urgência e necessidade. Nesse momento, o trabalho se desdobrou em múltiplos suportes, como autorretratos fotográficos, desenhos e escrita, funcionando como uma estratégia de sobrevivência e de remapeamento do eu. A arte tornou-se, então, um exercício de elaboração do trauma e de reconstrução da própria história.
Essa investigação resultou em projetos que ganharam circulação no circuito de arte. Sua série "Alice", um ensaio sobre o luto, o cuidado e a memória familiar, alcançou reconhecimento nacional e internacional, sendo exibida no Festival de Fotografia de Tiradentes (2022), no Photography Day do Preus Museum, na Noruega (2021), e na 1ª edição do Salão Nacional de Arte Fotográfica. A validação institucional se consolidou com prêmios como o do Itaú Cultural e com a aquisição de uma obra para o acervo permanente do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), onde também realizou as exposições "ENTREATOS" (2023), "ENCRUZILHADA" (2022) e "Salvador do Povo, de Lina e Todos os Santos" (2020). Sua produção recente, incluindo a fundação da plataforma OKA, continua a explorar as intersecções entre arte, vida e processo, entendendo a prática artística como um modo de existência e um campo de conhecimento.
Declaração de Artista
Minha produção artística parte de uma condição de urgência, de uma necessidade de agenciar a própria existência através da criação. Entendo a prática não como uma escolha profissional, mas como um campo de investigação existencial, um território onde a vida é elaborada, questionada e reescrita. Meu trabalho se desenvolve na intersecção entre corpo, memória e território, investigando como as subjetividades são moldadas por narrativas pessoais e coletivas.
O processo criativo é ativado por uma fricção entre a disciplina da arquitetura, que me deu a estrutura, e a pulsão da vida, que me levou à ruptura. A fotografia emergiu como um dispositivo central nesse percurso, uma tecnologia de si que me permite mediar a relação entre o ver e o ser. Em momentos de crise, a prática se intensifica e se desdobra em múltiplos suportes, como fotografia, desenho e escrita, que funcionam como estratégias de sobrevivência e ferramentas para a elaboração do trauma. O autorretrato, nesse contexto, não é um exercício narcísico, mas uma forma de mapear um eu em constante construção e desmantelamento.
Opero a partir da premissa de que o íntimo é político. Projetos como a série "Alice" partem de uma micro-história, que envolve o luto, o cuidado e a memória familiar, para acessar questões universais sobre a fragilidade, o tempo e os afetos. Interessa-me a potência do fragmento, do vestígio, da narrativa pessoal como um modo de produzir conhecimento e de tensionar as grandes narrativas. A arte, para mim, é esse lugar de respiração e de risco, um exercício contínuo de negociar com a própria história para, talvez, encontrar uma forma de dizer o que ainda não tem nome.
Bruno Ataíde
BIO
Bruno Ataíde (1985) é um artista visual e fotógrafo natural de Feira de Santana, na Bahia, que traz em sua bagagem de vida a forte influência do sertão e das múltiplas experiências vividas desde a infância. Da convivência próxima com avós e familiares, guarda memórias intensas que vão desde o cheiro da comida caseira às frequentes viagens para Euclides da Cunha, onde o contato direto com a paisagem árida, os cavalos e a cultura dos vaqueiros lhe deram uma visão afetiva e poética do mundo. Seus deslocamentos — seja pela capital Salvador, seja por lugares como o Pantanal, Itaparica ou a floresta amazônica — alimentaram seu imaginário, evocando cores quentes, sensações sinestésicas e reflexões sobre o tempo, o sonho, a natureza e a espiritualidade.
Se interessa por espaços em transição ou abandono, apreciando tanto os traços físicos — como as estruturas arquitetônicas — quanto as camadas invisíveis que contam histórias. A fotografia surge em sua trajetória como meio de se relacionar com paisagens externas e, ao mesmo tempo, explorar paisagens internas, refletindo uma busca por conexão profunda com a natureza e por autoconhecimento. Em sua produção, elementos como meditação, sinestesia, rituais de expansão da consciência, memórias de viagem e estados oníricos se misturam, resultando em obras que transitam entre o real e o abstrato, sempre permeadas pela inquietação de quem observa o mundo com olhos curiosos e coração aberto.
Declaração de Artista
Nasci em Feira de Santana. Convivi com avós, pais e cavalos. Vi água, terra e vento. Percebi sombras, cores e ecos. Encontrei na fotografia um modo de observar. Registro aquilo que sinto. Busco espaços, pessoas e passagens. Exército o olho como janela do não visto. Arquiteto formas e cenários. Sigo a ligação entre memória e pulsação. Gosto da quietude e do encontro. Fotógrafo para expandir um movimento interno. Busco na natureza uma rota de cura. Carrego a câmera como bússola. O presente se mistura ao passado e ao sonho. Vejo a vida como um fluxo. Observo e componho, sem certezas. Cada imagem é uma semente. Uso a fotografia como convite. Registro formas, luzes e frestas. Percorro construções e ruínas. Descubro o tempo em tijolos, ferrugem, pó. Carrego a câmera como bússola. Investigo espaços, gente e passagens. Mergulho nas memórias. Abro o presente em sonho. Encontro a vida no vento, na água, na pausa. Arquiteto imagens para escutar ecos e sentir o corpo. Não busco certezas. Aceito o desconhecido, sustento o olhar, acolho o instante. Cada fotografia é um passo. Cada pausa é um suspiro. Cada trabalho é um diálogo. Aqui, o real se confunde com o que ainda não existe. E sigo.